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LAGUNA DE ARARUAMA EM PERIGO
ELISIO GOMES FILHO - 02\12\2007

Laguna de Araruama desfigurada e ameaçada, responsabilidade de quem? Do governo municipal, estadual, federal ou da Prolagos (Águas de Portugal)? A Laguna de Araruama é a maior do mundo em hipersalinidade permanente. É o berço da história de toda a Região dos Lagos, porque em sua foz, no ano de 1503, Gonçalo Coelho fundou uma feitoria. Ela é uma obra prima da natureza, um fenômeno geográfico e hidrológico, constatado pelo grande geógrafo Alberto Lamego. Mas infelizmente, se antes tínhamos um grande mar interior, original, fonte de inspiração de poetas, escritores e pintores, hoje a sua atual imagem paisagística nos causa profunda tristeza e constrangimento. Seu espelho d’água foi desfigurado. Suas águas, outrora verdes ou azuis (de acordo com a direção do vento reinante) e transparentes, hoje se encontram marrons. Houve um dano paisagístico e um desequilíbrio sem igual, pois toda a laguna está tomada por águas escuras, do início ao fim de seus limites. Ela perdeu o seu encanto, a sua magia, deixou de ser aquele mar interior que extasiavam a todos que a conheciam. Consta através de estudos científicos, que o fator principal que contribuiu para as alterações da cor da água da Laguna de Araruama, é decorrente das águas resultantes da estação de tratamento de esgoto da PROLAGOS, ricas em nutrientes (fosfatos e nitratos) que “adubam” certa espécie de microalga, cuja explosão populacional veio alterar a cor da água do delicado sistema lagunar. É assustador o volume de água tratada despejada diariamente pela estação da Prolagos (filial da multinacional Águas de Portugal) no frágil sistema lagunar. Registra-se que essa fase de “adubação” trará maiores danos ambientais, além do causado pela mudança da coloração da água, ou seja, a mortandade da fauna (principalmente de peixes e crustáceos). Acontece que como ocorre um acúmulo da matéria orgânica, oriunda da morte das microalgas, o processo faz com que os organismos decompositores retirem oxigênio da água para digerirem a matéria orgânica (aumento da DBO - Demanda Bioquímica de Oxigênio) matando os peixes por asfixia, a exemplo do que ocorre com a Lagoa Rodrigo de Freitas todos os anos, no Rio de Janeiro. Em tese não são toxinas que matam os seres vivos que habitam a laguna e sim um fato ecologicamente explicável, decorrente da ação antrópica. Em suma, a decomposição da biomassa das algas mortas, vai requerer que os outros microrganismos venham retirar o oxigênio da água, gerando mortandade de toda a fauna. De modo que recentemente, numa faixa do canal do Itajuru, ocorreu a morte de cerca de uma tonelada de peixe. Esses problemas foram apontados pelo laudo técnico, elaborado pela Profa. Dra. Maria Helena Baeta Neves, junto ao laboratório do IEAPM, que foi solicitado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Pesca de Cabo Frio, ficando à disponibilidade pública na mesma secretaria. Em resumo, tudo o que vem ocorrendo com a laguna de Araruama já estava previsto em estudos anteriores e se nada for feito, consta que as previsões apontam para um maior escurecimento das águas, com a constante mortandade de peixes e a invasão de águas degradadas sobre a Praia do Forte, provindas através do canal do Itajuru, durante a maré de vazante. Soluções já foram apresentadas: • Impedir que a água final da estação de tratamento de esgoto(estação da Praia do Siqueira – Cabo Frio) seja lançada na laguna hipersalina, porque além de alterar o índice de salinidade, provoca o desenvolvimento excessivo de certa espécie de microalga; canalizando a água final dessa estação de tratamento, ricas em nutrientes para áreas agrícolas degradadas, a exemplo da bacia do Rio Una, no II Distrito de Cabo Frio, ou canalizar o despejo dessa água tratada diretamente para o oceano. Mas alega-se que tais obras seriam onerosas.Contudo, incoerentemente o governo estadual gasta atualmente cerca de 40 milhões de reais (parte do dinheiro foi desviado do projeto de despoluição da baía de Sepetiba) numa nova ponte para alargar o canal do Baixo Grande (visando alimentar de águas oceânicas, as regiões mais interiores da laguna de Araruama). Acontece que as águas limpas, verdes, que entram com as marés de enchente, não conseguem mais renovar as águas escuras, o que se constata através da observação das águas do canal do Itajuru, o qual se transformou em um verdadeiro rio de cor “barrenta”. Em suma, se gasta milhões em uma obra visando solucionar um problema, o qual não vai mais resolver outro grande problema já instalado e muito mais significativo do ponto de vista paisagístico e turístico, ou seja, a mudança da coloração da água, que fez com que a laguna deixasse de ser um grande e belo mar interior – outrora, um dos principais cartões postais da região norte fluminense. Escrito por Elísio Gomes Filho Ambientalista e historiador www.nomar.com.br
 
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